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quarta-feira, 30 de março de 2011

Santa Clara, “Mata da Doca”, Campo Açores

  Recorte do "Sport dos Açores", 1924 ............"Mata da Doca", ainda com as araucárias   Santa Clara Foot-ball Club, Out 1922........ Sport Club Santa Clara (?1927?)   Clube Desportivo Santa Clara 1948/49........ Equipa das Cancelas (Loja do Capinha) 1972 

Santa Clara não foi só “o berço” de Ponta Delgada. Embora em outro patamar, foi também “creche” e “jardim-de-infância” do futebol micaelense. Disso nos deu conta António Kopke Ayalla, em 1924, nas páginas do “Sport dos Açores”, Semanário Desportivo Ilustrado do qual foi director, ao remeter para 1895, nas “pedreiras da doca” (Mata da Doca, mais tarde Campo Açores), os primeiros jogos de futebol com bola apropriada. O luxuoso objecto, uma câmara-de-ar esférica revestida com pedaços de a couro bem cosidos uns aos outros, naqueles derradeiros anos do século XIX mandado vir de Inglaterra pelo “Padre James” do Colégio Fisher, tinha acabado de chegar à ilha para gáudio do próprio António Kopke Ayalla (filho de um, e parente próximo de outro, dos responsáveis pela construção do porto de Ponta Delgada) e de outros jovens alunos daquele estabelecimento de ensino, pioneiros entre nós na prática da modalidade. Um quarto de século depois de Santa Clara ter sido palco daqueles que foram os primeiros pontapés num cautchú em São Miguel, quando entretanto o Campo Açores já havia deixado de ser local de acantonamento “dos americanos” que passaram os últimos tempos da I Grande Guerra em Ponta Delgada (Fevereiro de 1918/Setembro de 1919), viviam-se então quer nas “Cancelas da Doca” quer na “Mata da Doca” alguns dos momentos altos dos “Campeonatos de Santa Clara”, o Campo Açores saltou de novo para as primeiras páginas por via do muito mediatizado desafio efectuado pelo team brasileiro, com o Sport Club Terror, com fortes afinidades a Santa Clara, assumindo as “honras da casa”.

O jogo brasileiros vs açorianos deu origem a um soberbo texto (C.A. 28 de Novembro de 1920) assinado por Bruno Dennis – possível pseudónimo de alguém próximo de Diniz Moreira da Motta, talvez Rolando Viveiros, mas com grande probalidade Agnelo Casimiro – cuja leitura é imperdível.

Ora vejamos:

.“Domingo. O burguês deixa os asfaltos…

Lembrou-nos Heine.

Dia lindo, ar fresco e lavado, luz doirada convidando-nos à acção. Quebre-se no dia do Senhor a monotonia pungente do viver angustioso destes tempos, dando tréguas às suas preocupações constantes: o futuro da família, da nação, da sociedade! …

E como o Correio dos Açores tivesse anunciado um desafio de foot-ball entre Brazileiros e Micaelenses – excelente pretexto – enveredamos pela Rua Formosa além.


Desapareceram as antigas Pedreiras da Doca?

Por sobre aqueles montículos pitorescos, coleando pelos vales, em cima das esplanadas, bordando veredas e caminhos, estendendo-se cerrado o arvoredo, que entremeia e tece os ramos, numa confusão imensa de folhagens, matiza os seus verdes diferentes e derrama gratamente, por sobre a terra que o nutre, uma sombra protectora e amiga.

Dum deserto fez-se um bosque! Por entre as pedras brotaram acácias e pinheiros; o antigo solo abrasado ostenta hoje carvalhos, engélias, araucárias, rubínias, piteiras… e sobre aquela terra vermelha e tórrida, que escaldava, que feria a vista, estendeu-se um tapete verde de relva fresca e tenra, que nos descansa a retina…

Quanto podem o entusiasmo de um homem, o escorregar vagaroso do tempo, e o forte viço das plantas! No meio do parque – seu coração – espraiando-se largamente como arena imensa de um coliseu atlântico o Campo Açores. Plano, nivelado, extenso, presta-se magnificamente a todos os jogos, a todos os desportos: tennis, foot-ball, croquet, bilro barra, gymkanas, corridas de velocidade, de resistência, de bicicleta, concursos hípicos, etc.

A um canto, joga-se, muito mal, o Association. Brazileiros e Micaelenses disputam com ardor quem levará a palma da indisciplina, desorientação e falta de sangue frio, qualidades essenciais para aquele jogo, e que ele tanto desenvolve, quando bem dirigido…

Apesar, porém, de todas as incorrecções e faltas, sempre era um protesto vivo contra a atrofiante civilização actual, que condena ao sedentarismo, amolece as funções, fazendo-lhes perder a tenacidade e o vigor, e priva o corpo do ar e do sol.

Como nos lembraram então os ginásios da Grécia, vastos parques em que rijos efebos, nus, tostados pelo sol, alegres de saúde, se exercitavam com entusiasmo nas palestras, sob a clara luz do dia, enquanto outros, já retemperados pelo exercício, se refrescavam no balneário, esfregando-se com estrigil, lubrificando-se com óleos suaves, e mais longe, outros ainda, lestos e contentes, com a boa disposição que segue a hidroterapia, manejavam com subtileza a dialéctica, avançando altas teorias e conceitos profundos ou equilibrando com agilidade sofismas argutos e delicados… !

Tais instituições formavam os mais belos cérebros, sustentados pelos mais nobres corpos, que a Humanidade tem visto! Sabe-se o resultado obtido no ginásio de Reims pelo grande Hébert...


Denis Mota acariciava este plano; mas não se limitavam a isso os seus projectos. Desejava traçar ali avenidas de rodagem, arruamentos para peões, veredas e atalhos nos sítios mais íngremes, propunha-se desbastar o arvoredo, semeado assim compacto com intuitos de protecção e para obviar as recusas tão frequentes das plantas mais delicadas, introduzindo depois espécies mimosas e belas, mas de resistência menor. Ajardinaria uns dois ou três pontos deixando o resto na sua rudeza de mata, convidando às excursões e aos piqueniques.

Junto à casa do Século XX abrir-se-ia um lago (a cargo do mar enche-lo), e construir-se-ia uma piscina. Uns barquinhos, montes de areia aqui e além, algumas redouças e outros brinquedos eram destinados às crianças…

Assim haviam de passar algumas horas de bom ar, paz e simplicidade aqueles a quem a Vida não permitisse gozar o campo nos meses de verão.


O estabelecimento do seu Parque da Alegria (assim tencionava chamar-lhe); a organização da Praia de São Roque, aproveitando a variante da estrada nacional entre São Roque e o Pópulo (chegou a expropriar os terrenos precisos), que viria a proporcionar a Ponta Delgada as vantagens de uma praia, que o acaso verdadeiramente lhe destinou; o aproveitamento da energia da Ribeira dos Tambores, feito paralelamente com a construção da estrada da Ribeira Quente (serviço que deixou começado) – tais foram as três últimas ideias que lhe inflamaram o coração altruísta.

“É o meu testamento à minha terra”, disse uma vez, com um sorriso triste nos olhos de veludo.

Dentro de poucos dias, expirava…” .


Este é, ou não um autêntico hino à “Mata da Doca”, ao Campo Açores, e, claro, a Diniz Moreira da Motta?

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